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Dois moleques na prova dos nove
Um garotinho lá em casa está ansioso e fazendo contagem regressiva. A cada dia ele vê que falta menos tempo para o aniversário de nove anos. Sem saber, o moleque me fez viajar a 1973, quando eu tinha essa idade. As lembranças não são exatas porque a memória já não é tão boa, mas vamos até lá, meu garoto. Preste atenção! Agora estou falando com você mesmo! Mais ou menos nessa época, fui apresentado às calças com zíper. A primeira experiência foi terrível. Só de pensar, sinto aquela doooor de novo. Meu pai e um amigo dele correram pra desenganchar o bichinho. Você, carinha, teve mais sorte. Já conhece bem o abre e fecha e não é bobo como eu era. Com o tempo, aprenderá a hora certa de ficar sem cueca. Um a zero pra você. Minhas calças também eram um show. Tenho recordações de uma azulona, de uma laranja (se disserem que era abóbora eu nego) e de uma listrada de preto, bege e outra cor indefinida que hoje acredito ser a de burro quando foge. E com as barras bocas-de-sino elas balançavam pra lá e pra cá o tempo todo. Você já pode vestir jeans com um monte de bolsos para os seus carrinhos, garotaço feliz. Dois a zero. Aos nove anos, de livre e espontânea obrigatoriedade, eu ia aos passeios usando conjuntos de short e camisa de tricô de cores beeeeem discretas, como azulão (sua avó gostava mesmo dessa cor) e verde reluzente. Feitos com carinho e competência por ela, mas de tricô! Tudo combinando com as meias brancas e os sapatos, muito bons para um menino correr leve e solto. Três a zero pra você, moleque, sempre descolado com bermudas, camisetas, tênis e chinelos. Com nove anos, a lousa da minha sala ficou embaçada e eu não conseguia copiar “o ponto” direito. Era a miopia pedindo lentes grossas e gerando novos apelidos na escola. A hereditariedade também entrou pelos seus olhos, mas você fica bem com esses óculos moderninhos e eu quase não vi que já fez quatro a zero em mim. Falando em apelidos, aquele foi um período em que a molecada da escola não perdoava o meu nome diferente. Era muita gozação e fiquei bravo com o seu avô e a sua avó. Por que não escolheram um nome “brasileiro”? Isso passou alguns anos depois, quando as meninas já puxavam uns papos do tipo: “que nome diferente, bem legal, o que significa?”. Você está tranquilo nessa parte, né Vitinho? No máximo, será um Vitão. E com as garotas vai se virar de outro jeito. Cinco a zero pra você. No nono ano de vida, ganhei meu primeiro relógio, com um pouco de sacrifício. Precisei economizar uns trocados e não via a hora de completar a quantia que, acho, era de 37 “cruzeiros”. Pense nisso ao escolher algum da coleção que você reuniu nesses quase nove looooongos anos. O tempo passa e você já tascou seis a zero em mim. Aos nove anos, eu adorava jogar bola e tinha várias qualidades. A primeira era correr muito. A segunda era correr muito. Isso sem contar as outras, que eram correr muito, correr muito e correr muito. Dizem que a bola estava lá, mas a gente quase não se encontrava. E você, garotão, com seus dribles e esse tirombaço de pezinho esquerdo, mesmo sem ser canhoto. Humilhou. Sete a zero. Nessa época, também passei a conviver com a minha eterna prova dos nove. Foi quando percebi que as contas de dividir e subtrair eram assustadoras e sempre iam parar no boletim, para espanto dos meus pais. Sofro com isso até hoje, mas ainda bem que o celular tem calculadora e me socorre. E você, aí, sossegado com a Matemática, tirando de letra. Ou de números? Oito a zero. Perdi feio. Placar irreversível. Com nove anos eu já me perguntava por que todo mundo tinha avô, avó, tio, tia, primo e prima sempre por perto. Os meus estavam do outro lado do mundo e falavam uma língua enrolada. Você conheceu avô, tem avó, 13 tios e um número quase incalculável de primos. Sortudo. Fez nove a zero em mim. Desisto. Você já ganhou. Ah, mas antes de parar tem mais uma coisa. Aos nove anos, comecei a entender um pouco quem era aquele sujeito que chamava de pai. Muito sério, mas brincalhão. De princípios rígidos, mas divertido. Exigente, mas compreensivo. Muito honesto, mas sem se achar acima dos outros. E você, garoto, só tem... Eu! Dez a nove pro moleque que eu fui! Pensou que ia ganhar sempre? Mas fique calmo porque ainda estou aqui e, na verdade, não existe uma disputa entre nós. Jogamos no mesmo time e ganhamos e perdemos juntos. Acho que tive boas aulas de como ficar ao lado de um filho. Pode contar comigo pra tudo. Quase tudo... Sabe aquela história do zíper, lá no começo? Então... Eu não tenho as habilidades manuais do seu avô pra mexer com essas coisinhas. O resto você me ensina, carinha! Passei um tempo ausente aqui para me dedicar às mudanças de um novo projeto profissional. Sou grato a todos que cobraram a volta. Agradeço também aos ouvintes de outras jornadas que pude reencontrar e aos novos que tive a oportunidade de conhecer. Estou diariamente, das 6 às 10 da manhã, na Rádio Estadão ESPN, em FM 92,9, AM 700 e www.estadaoespn.com.br, ao lado da Mia Bruscato e do Elder Ferrari.
Escrito por Haisem Abaki às 15h57
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Um segredo público
Uma senhora aparentando 50 anos (espero não ter sido rigoroso demais) tira o celular da bolsa e passa a conversar com uma “Mariana”. Não sou enxerido, mas descobri sem esforço quando ela disse, logo de cara, um “Oi Mariana”. Percebi também que era uma mulher muito conservadora porque o aparelho tocou como se fosse um telefone mesmo (triiiiim!!!), sem aquelas modernidades multimidiáticas disponíveis para download, muito usadas por quem está down e precisa de um up. Na hora, pensei na minha filha. Se ouvisse o toque de celular da pobre mulher, seria a única chance de meu Happy Go Lucky ser elevado ao conceito de “descolado” e ninguém ficaria torcendo pra eu atender logo e acabar com a tortura. Mas logo a conversa da desafortunada senhora me tirou daqueles pensamentos domésticos. Daqui pra frente, vou parar de chamá-la de “senhora” e “mulher”, que são os parcos recursos que tenho para falar de alguém cujo nome ignoro. Vou me referir a ela apenas como “vovó”, diante do teor do diálogo que fui “obrigado” a ouvir. - Ah, Mariana... Eu te liguei, sim. Ah, menina, eu tô sem chão... E depois de Mariana ter perguntado o que havia acontecido (brilhante conclusão do esperto aqui), veio a história inteira. - É a Fabiana... Você não sabe, menina... Ela não foi com o pai pra Recife? Pois, é... Conheceu um rapaz lá e embarrigou. Vai me dar um neto... Eu queria muito um neto, mas não desse jeito. Aumentei o volume do fone de ouvido do meu rádio, que às vezes também faz e recebe ligações. Achei melhor não ouvir mais aquilo, mas a futura vovó parecia falar cada vez mais alto. - E o pior é que o rapaz veio pra cá atrás dela e ela disse que não quer nada com ele. Vai ter o meu neto, mas não quer saber de casamento... Diz que é muito nova... No meu rádio falava o Muricy Ramalho, o que em termos de humor não mudava muito a minha escuta, já que ele também reclamava da vida, feito a hiena de Lippy & Hardy (Oh, dia... Oh, azar...). E a vovó prosseguia nas lamentações. - Vai sobrar pra mim... Eu é que vou ter que cuidar... Dei uma passeada radiofônica e nada. Notícias, MPB e baladas não superavam as lamúrias da vovozinha. Nem ouvir Guns N’Roses com “Welcome to the Jungle” adiantou. O desgosto expresso na fala estridente da futura avó coruja era muito mais pauleira. Então, comecei a prestar atenção mesmo e até olhei para ela. Aos poucos a conversa foi ficando mais amena e entrou pelo enxoval e pelo nome da criança. Pedro, Vinícius, Adriana, Marina... Já estava tão familiarizado que quase dei palpite! Pensei que estava sendo intrometido demais ao ouvir descaradamente aquela conversa, mas deixei a consciência pesada de lado quando uma voz soltou um “Estação República” pelo alto-falante. Era um segredo para poucos. Só eu e a torcida do Metrô Palmeiras/Barra Funda-Corinthians/Itaquera estávamos sabendo. A partir de agora, vou falar mais baixo quando o Happy Go Lucky tocar!
Escrito por Haisem Abaki às 20h27
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De volta ao rádio paulistano
Neste mês de setembro, inicio uma nova etapa profissional. Estou de volta ao rádio paulistano, com muita alegria e disposição para fazer o que mais gosto. Minha nova casa é a Estadão ESPN, onde já nos primeiros contatos encontrei um projeto estimulante e um ambiente que me é muito familiar, com a presença de bons companheiros de outras jornadas pelo rádio. A partir do dia 05, estarei diariamente na apresentação do Estadão no Ar 2ª edição, das 13 às 14 horas, e do Estadão no Ar 3ª edição, das 18 às 20 horas, tentando fazer um jornalismo que respeita a inteligência do ouvinte. Sou grato a todos vocês pelas manifestações que tenho lido e ouvido depois de ter deixado o Grupo Bandeirantes, uma boa casa na qual tive a oportunidade de trabalhar por 12 anos e fazer amigos, a exemplo do que havia ocorrido nos 7 anos de CBN/Globo, outra grande casa também. Agora terei novamente a oportunidade de retribuir o apoio por meio do veículo que nos aproximou. Vamos nos falar pelo rádio. Espero poder reencontrá-los em FM 92,9 e AM 700.
Escrito por Haisem Abaki às 18h01
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Surpreendido pelas costas
Começou “devagar, devagar, devagarinho”, como diria Martinho da Vila. Depois, foi “crescendo, crescendo, me absorvendo”, como diria Peninha. Uma leve dorzinha na parte baixa das costas, perigosamente perto de uma região estratégica. De imediato, tomei uma decisão firme, de muita atitude, numa postura que sempre adoto quando o assunto é algum incômodo com a minha saúde. Resolvi não fazer nada. Achei que era uma bobagem causada pela bagagem que havia carregado numa viagem de fim de semana e segui em frente, sem me preocupar com tanta rima. Parti para a minha corrida habitual levando as costas junto. Começou a chover e não me importei. A água desceu mais forte e não liguei. Só parei quando os pingos já entravam nos olhos. Dormi mal e acordei com mais dor ainda. E aí, finalmente... Decidi não fazer nada de novo. No trabalho, o desconforto aumentava cada vez mais. Por telefone, alguém que me ama me mandou ir ao médico. Aceitei de livre e espontânea obrigatoriedade, com apenas uma condição: “Só vou se você for comigo...”. Ela não podia e fui sozinho, menos pela dor e mais para provar que um menino de 46 anos (quase 47) já sabia fazer algumas coisas sem ajuda, como amarrar cadarços, por exemplo. Não, nem isso eu estava conseguindo. Ai! Depois do exame clínico e da radiografia, o ortopedista apontou uma “lombalgia leve por prática desportiva”, receitou um antiinflamatório de nome Celebra (tomei, mas não celebrei porque detesto remédio) e me mandou para dez sessões de fisioterapia. Em três dias, nada mais de dor. Pensei em dar de ombros para o tratamento, mas um simples olhar de alguém especial me fez ser um garoto obediente pra não ficar de castigo. Ela sempre me convence. Fui sozinho outra vez e pronto. Quase isso. Tá bom, levei minha filha e meu filho comigo alternadamente em algumas sessões. Fui muito bem tratado. A série era bem simples, apenas com exercícios de alongamento, na base do estica e puxa. Foi um alívio, porque pensei que seria lavado, torcido, enxaguado, centrifugado e estendido no varal pra secar. No primeiro dia, apareceu um fisioterapeuta muito gente boa, mas que não precisava ter exagerado. O rapaz explicou tudo direitinho e me deu total assistência. Ele acompanhou o meu desempenho, foi um grande incentivador e fez perguntas, até que chegou um momento crucial. Foi um “Sentiu o bumbum esticar?”, seguido de um leve tapinha no mesmo. Respondi com um tímido balançar da cabeça em sinal de sim. Que pergunta amarga! Cara folgado! Depois, ainda disse pra eu avisar se sentisse dor para me dar “uns choquinhos”! Fiquei chocado! Ainda bem que não precisei. Na segunda sessão, fui atendido por uma fisioterapeuta muito gente boa, que não exagerou em nada. A moça explicou tudo direitinho e me deu total assistência. Ela acompanhou o meu desempenho, foi uma grande incentivadora e fez perguntas, até que chegou um momento fenomenal. Foi um “Sentiu o bumbum esticar?”, seguido de um leve tapinha no mesmo. Respondi com um abundante balançar da cabeça em sinal de siiiiim. Que pergunta doce! Garota simpática! Depois, ainda disse pra eu avisar se sentisse dor para me dar “uns choquinhos”! Chocante! Pena que não precisei. Estirado na maca, fui tomado por um pensamento. Como duas pessoas que fazem exatamente a mesma coisa no mesmo lugar podem ser tão diferentes? Ele, gentil, competente, prestativo, atencioso e preocupado com o meu bem-estar. Que coooooisa! Não precisava de tudo isso! Ela, gentil, competente, prestativa, atenciosa e preocupada com o meu bem-estar. Que graaaaaça! Na medida certa! E teve mais! Ele, com muita paciência, me ensinou a levantar da maca (sempre de ladinho) e a abaixar corretamente para pegar alguma coisa no chão. Que abusado! Já ela, com muita paciência, me ensinou a levantar da maca (sempre de ladinho) e a abaixar corretamente para pegar alguma coisa no chão. Que doçura! Acho que devemos tratar todo mundo da mesma maneira e sou um sujeito sempre grato por tudo que me fazem de bom. Então, a ele, deixo o meu gelado “muito obrigado”. A ela, o meu derretido “muito obrigado, mas muito obrigado mesmoô”! Fiquei bom e fui liberado para retomar a atividade física aos poucos. Ah, e sobre os músculos glúteos, se estão esticados ou não, só tenho duas coisinhas a dizer. A primeira, é que me reservo o direito de ficar calado, rapaz. A segunda, é que estão, sim, mocinha.
Escrito por Haisem Abaki às 20h51
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Amor bem explicadinho
Do banco traseiro do carro, na volta da escola, vem uma voz de homenzinho que pergunta: - Pai, amar alguém é uma coisa muito boa, né? Olhei espantado pelo retrovisor, respondi com um “Claro que é!” e logo quis saber a razão de um menininho de 7 anos e 11 meses já expressar tal pensamento: - Ah, é uma coisa boa, pai, mas não dá pra explicar... Fiquei imaginando se alguém já teria despertado algum sentimento no moleque que dizem ser a minha cara e insisti com um “De onde você tirou isso?”. Minha versão melhorada me surpreendeu ainda mais: - Ah, foi daquela história que você escreveu falando de mim lá no seu blog... E eu, tonto, pensando que ele só entenderia daqui a alguns anos o último texto que publiquei! Em casa, tive a lembrança de um artigo que li sobre um “consultor” que dava dicas para encontrar “o amor da mulher certa”. Aí, achei que eu, com a autoridade de “papai sabe-tudo”, tinha todo o direito de dar as minhas receitas ao rapazinho tão interessado no assunto. Resolvi deixar as sábias orientações por escrito para ele entender daqui a alguns... Minutos? Não vou falar sobre coração batendo acelerado, suor, calafrios ou frases desconexas. Estes não são sinais exclusivos do amor. Aparecem também em outras situações, como andar de Montanha Russa, por exeeeeeeeeeemplo! Então, vamos aos fatos, meu garoto. Se alguém especial, longe ou perto, for a última pessoa em quem você pensa antes de dormir e a primeira que invade a sua cabeça ao acordar, está explicado: é amor. Se você sentir saudades repentinas várias vezes ao dia mesmo que a responsável por isso esteja ao seu alcance, está explicado: é amor. Se a cada encontro você tiver vontade de fazer um brinde, ainda que seja com água ou suco num copo descartável, está explicado: é amor Se você guardar na memória a voz suave de alguém com olhos penetrantes e um cheiro de uma fragrância que depois você descobre que é natural e não perfume, está explicado: é amor. Se você puder contar seus segredos, falar um monte de bobagens e deixar que ela faça o mesmo, escutando com paciência, está explicado: é amor. Se você permitir que a emoção role solta, sem culpa, sem vergonha e sem receio de se mostrar um cara sensível, está explicado: é amor. Se você se encantar por uma pessoa que sempre tem palavras sensatas e adultas na hora certa, mas ainda gosta de bonecas e bichos de pelúcia, está explicado: é amor. Se você se lembrar de alguém ao ouvir o Air Supply cantando “Making Love Out Of Nothing At All” e não achar a letra pesada e a interpretação exagerada em nenhum momento, está explicado: é amor. Se você se identificar com o Elvis ou o Willie Nelson cantando “You’re Always On My Mind” e pedir desculpas por alguma besteira que tenha feito, está explicado: é amor. Se você for capaz de ver o filme “Letra e Música” e de dar aquela reboladinha do Hugh Grant quando toca “Way Back Into Love”, está explicado: é amor. Se você, num impulso, resolver fazer uma limpeza de pele pela primeira vez na vida (sim, machões de plantão, eu disse lim-pe-za-de-pe-le!) e ficar esperando que ela note alguma diferença, está explicado: é amor. E, por fim, o grande teste. Se você conseguir jogar todas essas receitas no lixo e criar as suas próprias, ainda mais malucas do que as minhas, está explicado: é amor. O importante é não ter medo de ser ridículo. Quanto mais, melhor. Aí, sim, vou ter a certeza de que você é mesmo a minha versão melhorada. E se você perceber que ama de um jeito que não tem mais cura, finalmente, estará salvo. Está bem explicadinho, carinha? Se não estiver, relaxe. Inexplicavelmente, é sempre muito bom.
Escrito por Haisem Abaki às 22h17
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De pai pra filho
Meu filho tem quase oito anos e já sabe das coisas. Prova disso é que ele gooooosta da mamãe e gosta do papai. Beeeeeeija a mamãe e beija o papai. Abraaaaaaça a mamãe e abraça o papai. Por isso, tenho a certeza de que ele será um cara decente. Já é um bom começo, mas espero que ele acumule outros gostos ao longo da vida e que alguns, talvez, sejam parecidos com os meus. Quero que ele goste de um ser chamado “gente” e que consiga enxergar o que existe de melhor nas pessoas, mas que tenha uma dose mínima de malícia pra se defender de quem só tem aparência de “gente”. Quero que ele ame alguém profundamente e saiba dar e receber felicidade, sem medo de rir, chorar, concordar, discordar, desculpar e pedir desculpas. Quero que ele seja muito sério, mas que sempre tenha uma bobagem engraçada pra falar. Que tenha firmeza, mas não perca a sensibilidade. Quero que ele seja muito sincero, mas não áspero. Que seja certinho, mas que possa dar umas derrapadas de vez em quando. Quero que ele seja muito homem, mas não perca a doçura. Que goste de futebol com amendoim, mas também de assistir comédias românticas com pipoca e segurando na mão de alguém especial. Quero que ele tenha uma paixão por uma pessoa e pela profissão como o Totó, de Cinema Paradiso. E que não se canse de ouvir a trilha sonora do Ennio Morricone e de ver o fim do filme com a mesma emoção da primeira vez. Quero que ele ouça notícias no rádio pra ficar bem informado, mas que não deixe de ter momentos musicais cheios de “love hits” que o façam sonhar e sentir saudade. Quero que ele goste de caminhar e esteja sempre em boa forma, mas que se permita estar ao lado de uma companhia delicada para um sundae. E, como eu, quero que ele goste um pouquinho de si mesmo e gooooooste de uma pessoa com voz suave e olhos marcantes. Caramba! Esse moleque já começou a me puxar!
Escrito por Haisem Abaki às 16h58
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De uma vez por todas
Minhas formas menos arredondadas nos últimos tempos têm me revelado “partes” de mim mesmo que eu não conhecia ou que a memória havia guardado num arquivo secreto sob a proteção de alguma senha inacessível até para uma mente privilegiada como a minha, que é capaz de fazer várias combinações numéricas de um a três. Comecei a subir numa balança que tenho em casa e observei a gradual redução do centro expandido do umbigo. Tomei todos os cuidados para não exagerar no novo hábito. O autocontrole foi a chave para o sucesso. Deixei claro para a dona balança quem mandava em quem. Comigo não! A danada que não pensasse que faria de mim um escravo. Nada disso... Segurei o ímpeto e só me pesava umas 319 vezes por dia. Depois, até “reparei” que havia um espelho no quarto e que eu passava na frente do dito cujo sem fixar o olhar. Então, aos poucos, fui me acostumando a contemplar aquele corpitcho de vinte anos atrás que voltei a ter. Mas o “espelho, espelho meu, existe neste mundo algum cara mais enxuto do que eu?” também não me dominou. Não, senhor! Mostrei logo quem era o ser superior e quem era um mero pedaço de vidro. Não deixei o exibido reluzente me atrair. Só parava ali umas 443 vezes por dia. Numa dessas raríssimas ocasiões, notei um perfil cada vez mais reto, do tipo tábua de passar roupa, mas sem tremedeira nas pernas. E, ainda melhor, sem um ferro quente por cima. Com o equilíbrio de sempre, não fiquei olhando primeiro de um lado e depois do outro indefinidamente. Isso é coisa de quem não tem o que fazer. Só olhei primeiro de um lado e depois do outro, de um lado e do outro, de um lado e do outro, de um lado e do outro, de um lado e do outro, de um lado e do outro... Não mais do que umas 544 vezes. Outro dia, ainda com o peito desnudo, algo me chamou a atenção no ombro direito. Depois, numa verificação mais atenta, percebi outra saliência igualmente durinha no companheiro da esquerda. Eram dois ossinhos que nunca tinha visto ali. “Emagreci até nos ombros”, imaginei rapidamente. Foi um pensamento-relâmpago mesmo, que só passou pela cabeça umas 234 vezes. Nem me importei com a descoberta, dei de ombros e olhei para o espelho apenas umas 256 vezes. Ou 128 pra cada ombro, pra não ter briga. Subindo um pouco e não mais descamisado, senti uma coisa estranha no pescoço. Não chegava a ser uma girafa, mas parecia mais esticado. O colarinho também estava esquisito e sambava de um lado para o outro. Tomei coragem e fiz a experiência definitiva. O detestável botão da gravata fechou. E com folga! Fiquei com a impressão de que o gogó havia emagrecido. Será? Pura bobagem e não quis pensar nisso mais do que umas 112 vezes. Dava até pra colocar os dedos que não ficava apertado, mas não fiz o teste compulsivamente. Foram apenas umas 292 vezes. Como sou um sujeito extremamente controlado, deixei de ficar me admirando, ainda que tão pouco. Eu posso viver bem sem isso. Mas nesses últimos meses a sensação tem sido a de estar diante do espelho em todos os lugares. Até hoje, diariamente, ouço uma sucessão de “nossa, como você emagreceu!”. Perdi a conta na “nãoseiquantésima” vez. Ô gente exagerada! Será que não existe ninguém absolutamente normal como eu? Já estava me conformando com isso quando, durante uma caminhada na praça, fui chamado por alguém que perguntou se “eu” era “eu”. Respondi que sim e, mesmo sem dizer mais nada, devo ter feito cara de “e aí, quem é você?”. O rapaz se apresentou como um colega que tinha visto pela última vez na sétima série, quando éramos moleques de 13 anos. Quase 34 anos depois, ele soltou um “você não mudou nada, continua magrinho!”. Fiquei feliz ao ver que os quilos estavam perdidos, mas o mundo ainda não. Finalmente havia encontrado alguém sensato, que não ficava repetindo gestos, falas e caras de espanto. Exatamente como eu. Procurei meu velho amigo nos dias seguintes e espero poder revê-lo em breve. Quero que ele explique melhor a comparação que fez. Coisa pouca... Só umas 974 vezes pra eu entender!
Escrito por Haisem Abaki às 21h32
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Cansado de tanta folga
Depois da revelação da estupidez que cometi contra o meu querido ex-tênis, parceiro de caminhadas que me deixaram fininho, resolvi me permitir um dia de relaxamento, sem exercícios. Peguei três amigas e fui ao shopping à noite para um passeio. Isso mesmo, três amigas de uma vez. Já tinha saído com cada uma delas separadamente, mas nunca juntas. Foi uma experiência arriscada porque elas se conhecem muito bem e parecem sentir ciúmes de mim, embora nunca tenham falado sobre o assunto. Decidi não dar explicações porque acho que não devo satisfações da minha vida. Simplesmente coloquei as três no carro e parti sem dizer para onde estávamos indo. Ficaram todas caladinhas, sem perguntar nada. Ai delas se me enchessem a paciência... Chegamos ao shopping e fomos dar umas voltas, olhar vitrines, ver gente. Sem pressa. Conferimos os filmes em cartaz, paramos no caixa eletrônico e passamos pela praça de alimentação. Estava sem fome e só tomei uma água de coco. Não ofereci nada para as três danadas porque não mereciam. É isso mesmo, sem gentilezas. Quis demonstrar claramente o meu descontentamento com o comportamento delas. Ficaram mudinhas de novo. Ai delas se reclamassem um tiquinho que fosse... Estava muito bravo com os apuros em que me meteram nesses últimos tempos e percebi que era hora de dar um basta nisso. Precisava ser duro para que elas percebessem o meu cada vez mais evidente desconforto. Eram três folgadas que andavam por aí, me expondo sem nenhum pudor. Já tentei segurá-las para que parassem de fazer isso, mas não adiantou. Elas sempre se saíam bem no jogo de cintura e me deixavam em situações embaraçosas. Percebi que as pessoas começaram a reparar. Demorei muito para tomar providências definitivas e acabar de vez com as lambanças. Meu coração mole pesou um pouco porque eram companheiras queridas que sempre estavam à disposição, me dando cobertura. Enfrentamos muitas barras juntos, numa relação limpa e sem manchas. Reconheço que essas três amigas sempre foram justas comigo e que compartilhamos momentos de muita alegria até mesmo quando eu as jogava de lado e só queria saber de descontração. Mas o tempo passou e elas começaram a ficar soltas demais e me deixaram completamente largado. Então, decidi que já estava mais do que na hora de dar um aperto nelas. Entrei na loja onde havia comprado as três amigas e pedi para o vendedor tomar medidas drásticas. Medida daqui, medida dali e o rapaz, espantado, sentenciou: - Elas entraram 44 e vão sair 40! Deixei as três calças amigas lá e fui embora com a que tinha ido ao shopping comigo a trabalho e não a passeio. Ela sambava na cintura, querendo arriar de vez ao sacar que será a próxima a dançar. Quando for buscar as meninas enxutas, vou levar outras três para uma voltinha. E haverá mais uma leva depois, com algumas escandalosas tamanho 46. Essas calças folgadas não perdem por esperar quietinhas no guarda-roupa. E ai delas se abrirem o zíper pra falar alguma coisa! Sei que todas ficaram ainda mais caídas com a notícia, mas isso passa. Logo estarão de novo agarradas em mim.
Escrito por Haisem Abaki às 21h19
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Uma amizade despedaçada
Hoje vim aqui para assumir uma culpa que está me consumindo. Poderia fingir que não aconteceu nada, me fazer de desentendido e seguir adiante na vida, mas não fico bem comigo mesmo quando tenho essa terrível sensação de consciência pesada. Seria mais fácil ignorar o ocorrido e não me importar com justificativas para um ato tão deplorável. Afinal, essas coisas acontecem com qualquer um e ninguém está livre de um pecadinho aqui e outro ali. Quem nunca errou que atire a primeira pedra! Vejo tanta gente fria por aí, incapaz de admitir deslizes e que nem por isso deixa de dormir um sono tranqüilo. Eu não consigo ser assim e preciso dividir tamanho tormento com alguém para aliviar essa carga que já não suporto mais. Dei um mau passo e estou numa imensa angústia existencial. A vítima foi um amigo que não merecia ser tratado com desrespeito. Pior ainda: pisei nele sem dó e não percebi a maldade que estava fazendo. É uma amizade recente, de apenas sete meses. Mas parecia antiga, coisa de unha e carne mesmo. Era o meu mais novo amigo de infância e não tive um pingo de receio de destruir tudo com esse meu jeito bruto de ser. Conheci esse grande companheiro num shopping e logo percebemos uma tremenda identificação. Passamos a fazer caminhadas diárias juntos, sempre com muito prazer e cumplicidade. Eu sabia que podia confiar nele e o coitado achou que eu era digno do mesmo sentimento. Não era. Fui egoísta, eu confesso. Percorremos muitos quilômetros e ele estava sempre ali, calado, ouvindo até meus pensamentos. Logo, também se acostumou aos meus gostos musicais. Não dizia nada, mas a simples presença dele era suficiente para me incentivar cada vez mais a praticar exercícios. Era amarrado em mim. Eu, insensível, não valorizei nada disso. No começo, até achei que ele estava me incomodando e pegando muito no meu pé. Depois, vi que era um companheiro inseparável, mas mesmo assim o tratei como se fosse um objeto qualquer. Foi uma pisada muito violenta da minha parte. Hoje estou arrependido, ao vê-lo todo arrebentado. Peço desculpas ao meu caro amigo. Caro mesmo, porque não foi barato! Lamento ter pensado apenas na minha caminhada solo e nem um pouquinho na preservação da sola. Reconheço meu erro, mas suplico que não pense que sou tão mau assim, querido tênis do pé esquerdo. Olhe para o colega tamanho 40 aí da direita e veja que ele ainda aguenta o tranco. Talvez apenas mais alguns metros, mas aguenta. Fiquei inconformado ao saber que não havia mais conserto, mas a caminhada precisa seguir em frente. Vou procurar uma nova companhia e desta vez prometo ser mais cuidadoso com meu novo amigo do peito do pé. Aprendi uma lição e nunca mais serei um chulé sem coração. Deixei de ser aquela pessoa pesada e não quero dar mais “pezada” na vida. Pode acreditar. Agora sou um cara com os pés no chão!
Escrito por Haisem Abaki às 22h01
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Coisas que ando ouvindo
Minhas caminhadas diárias, apesar do esforço físico, têm me proporcionado momentos de prazer, descontração, leveza e relaxamento. Uma terapia mesmo, com uma pequena dose de bisbilhotice, mas sem querer. Eu tento ficar alheio, só que meus ouvidos acabam captando alguns trechos de diálogos. Ando diariamente numa praça em frente ao meu prédio, com uma pista de 600 metros de extensão. A demarcação do trajeto foi pintada no sentido anti-horário, que é o que eu sigo. Talvez esteja aí a explicação para eu me sentir mais jovem, caminhando contra o relógio, atrasando os efeitos do tempo. A maioria dos caminhantes do lugar segue esse percurso, mas alguns preferem andar no sentido horário mesmo. Assim, acabo ouvindo algumas conversas nas emocionantes ultrapassagens que realizo e outras que chegam “na contramão”, de pessoas que vejo de frente. Percebi que os papos mais animados e picantes envolvem mulheres que andam em duplas ou em trios. Não sou de ficar observando os outros ostensivamente, a não ser os cachorrinhos que levam as donas pra passear. O quê? Tem cachorro que leva “o dono” pra andar também? Nunca vi, mas vou prestar mais atenção para passar bem longe desses animais ferozes. Voltando às conversas femininas, houve um dia em que elas me chamaram mais a atenção. Deve ter ocorrido alguma conjunção planetária porque estavam todas atacadas e os alvos eram os mesmos. Fiz um levantamento “científico” e constatei que naquele dia, em 50% dos casos, elas falavam de homens com problemas. Nos outros 50%, a temática envolvia problemas com homens. Não havia margem de erro: os caras eram sempre os errados. Não quero descrever pessoas para não gerar constrangimentos. Vou me limitar aos trechos que consegui ouvir. E é melhor ir com calma para não sofrer represálias. Afinal, é muito fácil me reconhecer naquele batalhão de andantes. Sou um de short, tênis, meias brancas arriadas e uma nova camiseta velha e surrada a cada dia. Então, não posso correr riscos. Num dos papos, duas amigas falavam sobre um sujeito. No momento em que fui ultrapassá-las, uma delas disse que o cara “não larga da barra da saia da mamãe”. Só reencontrei as moças uns 50 minutos depois, já no alongamento. A conversa não tinha mudado e o bobão continuava do mesmo jeito, fazendo gu-gu-dá-dá! Mais à frente, três garotas falavam de um rapaz que, pelo que entendi, era um “galinha”. O “cretino” (definição de uma delas) tinha dado em cima da melhor amiga da menina e “depois fez cara de santinho”. Avistei o trio de novo nos aparelhos de ginástica da praça. E o infeliz ainda era um cretino e não parava de fazer cara de santinho. Eu puxando ferro e ele levando. Cruzei com duas andadoras e faladoras que vinham no sentido contrário. Não contei direito, mas acho que nos vimos umas oito vezes. Conversavam sobre um danado que vivia sumido, aparecia de vez em quando para “ir pra cama” (palavras de uma delas) e não queria saber de compromisso. O fôlego do cara deve ser impressionante, porque em quase todos os momentos que dei de frente com as moças o espertinho insaciável estava lá, só a fim de “ir pra cama”. Havia também uma solitária, coitada, mas com um celular salvador e uma amiga do outro lado da linha. O tema era “um desgraçado que só dava desculpas esfarrapadas” e que por isso acabou levando “um pé na bunda”. Esta última palavra saiu meio mascada quando a garota percebeu a minha presença. Fingi que não tinha ouvido nadica de nádegas e acelerei o passo para afastar meu traseiro de qualquer perigo. Vai que... Depois de algumas voltas na praça, a bateria do aparelho da chutadora já estava no fim, mas o bumbum do sujeito ainda era um alvo preferencial. Antes o dele do que o meu... Em todos esses momentos absolutamente casuais eu estava sozinho. De vez em quando caminho com um amigo e espero que ninguém fique ouvindo as nossas conversas, mas se isso acontecer não tem problema. Quase sempre falamos de trabalho, futebol, culinária, roupas da moda, cabelos, tratamentos de pele, maquiagem... Margem de erro? Apenas de 100%! Mas não tenho nada a esconder e sempre procuro ver o lado bom das coisas. Acho que devo me orgulhar de fazer parte da espécie masculina. Sim, é mais uma comprovação “científica”. Nós podemos ajudar na boa forma feminina. Falar mal de homem durante a caminhada faz emagrecer! Não que eu tenha reparado...
Escrito por Haisem Abaki às 12h47
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