Blog do Haisem


Novo Blog do Haisem Abaki

 

O blog está de cara nova e mudou de endereço, agora no portal do Estadão.

E o recomeço é com uma história cheia de gás. Veja em blogs.estadao.com.br/haisem-abaki/.

Sou grato a todos que apoiaram e interagiram nesses cinco anos e espero continuar merecendo tão boa companhia.

Todo o conteúdo deste blog foi transferido para o novo endereço.

Bjs e Abs

 



Escrito por Haisem Abaki às 23h36
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Somar, subtrair, multiplicar e dividir é igual a Joelmir

Ouvintes, leitores e telespectadores sempre puderam contar com um sujeito de fala mansa e texto fácil que conseguia transformar a frieza da economia em bate-papo de amigos em torno de uma mesa. Foi ainda garoto e odiando números que, por obra de Joelmir Beting, passei a achar alguma graça neles. A linguagem descomplicada dele me fez “entender” planos econômicos mirabolantes com aquela tradução impecável capaz de atingir em cheio as mentes, os corações e os bolsos.

Uma vez, como repórter que detestava cobrir seminários econômicos, fiquei do começo ao fim de uma palestra dele sem sentir o sono que me dominava nessas ocasiões. O tema? Já saiu da memória... Mas sei que depois ele parou pra passar alguns dados que, com uma dose de ousadia, quis confirmar. Parecia que ele estava falando com “um igual”, embora a conversa fosse de jornalista já consagrado para jornalista com seis, talvez sete anos de profissão naquele início dos anos 90.

Essa história poderia terminar aqui e já seria de profunda admiração. Mas o tempo passou, a economia se estabilizou e virei colega de trabalho do Joelmir na Rádio Bandeirantes. Foram quase sete anos de lucidez e diversão, de seriedade e piadas, de entrevistas esclarecedoras com ministros e “causos” contados com a “ingênua malícia” do caipira de Tambaú. E isso era todos os dias, um depois do outro, sem interrupções e sem alterações no tom de voz. Tudo parecia contradição, mas era pura coerência.

Coerência porque ele sempre conseguia fazer as quatro operações ao mesmo tempo. Somava, subtraía, multiplicava e dividia como ninguém. Somava alegria, subtraía mau humor, multiplicava simplicidade e dividia conhecimento.

Quando o Palmeiras ganhava, ele chegava no dia seguinte com uma camisa verde e um “sorriso paralisado” e ficava bem à minha frente, à espera do início do Jornal Gente, enquanto eu apresentava o Jornal Primeira Hora. Quando nosso Palestra goleava, já dava pra imaginar a cena. Era inevitável... Ele entraria no estúdio com um dedo levantado para cada gol. Quando nosso time perdia, ele já fazia a piada antes dos rivais. Eram as quatro operações, de novo, ao mesmo tempo.

Matutamente, também gostava de me “atrapalhar” de outro jeito. Aparecia com biscoitos finos em embalagens vistosas. Quase sempre pedia pra eu abrir o produto para “dar início aos trabalhos”. Às vezes mostrava o rótulo e dizia que se todos os ingredientes descritos estivessem mesmo ali estava bom. Pra me assustar, também fingia que ia jogar as bolachas na minha direção enquanto eu estava ao microfone. Concretizou a ameaça algumas vezes com um biscoito que dizia ser o melhor de todos. Fui goleiro de pacotes de maizena... Eram as quatro operações, sempre elas, ao mesmo tempo.

Mas houve um dia em que pensei que estava tomando uma bronca daquele sujeito que nunca ouvi gritar. Ele reclamou que eu estava chegando “muito em cima da hora” ao entrar no estúdio cinco minutos antes do encerramento do Gente e da abertura do Manhã Bandeirantes.

O pito que levei veio depois de uma conversa que ele havia tido com um taxista, na véspera. Era um ouvinte que sabia todos os temas das nossas conversas com o Zé Paulo e o Salomão na passagem de um programa para o outro. Olhou sério para mim e disse: “O que as pessoas gostam é das bobagens que a gente fala na passagem. Então, vê se chega uns 15 minutos antes. Ou então... Por que a gente não faz um programa inteiro só com a passagem? Vamos esquecer as notícias”. Lá estava ele, mais uma vez, fazendo as quatro operações ao mesmo tempo.

E depois ele ainda ficava mais um pouco pra ouvir as crônicas que eu lia para abrir o programa. Não foram poucas as vezes em que simplesmente me interrompeu com gestos engraçados ou para comentar o que eu estava falando e me fazer rir. Sem cerimônia nem convenções, com as quatro operações ao mesmo tempo.

E assim este momento de tristeza e de perda dá lugar às boas lembranças, que somam, subtraem, multiplicam e dividem ao mesmo tempo. Ele se foi, mas deixou uma história, esta sim, irreversível. E deixou também o meu querido amigo, Mauro, um cara que também soma, subtrai, multiplica e divide ao mesmo tempo. Como o pai.



Escrito por Haisem Abaki às 08h00
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Dois porquinhos sem medo de ventania

A historinha a seguir antecede uma “tragédia” anunciada. Entre aspas mesmo, para não ser confundida com tragédia, que é uma coisa bem diferente. Não costumo dedicar este espaço a assuntos muito sérios porque a vida já é suficientemente chata. Mas depois de ouvir, ler e ver a cobertura jornalística da quase inevitável queda do Palmeiras para a Segundona, resolvi chutar essa intenção pra escanteio.

Nos últimos dias, tem sido comum na imprensa falada, escrita, televisada, conectada e berrada, o uso de termos como “morte”, “enterro”, “degola”... Sem contar as expressões do tipo “Palmeiras agoniza...”. Perdi meu pai de maneira brutal e vi meu irmão agonizar. Sim, estou sendo bem direto nesses assuntos tão delicados, sobre os quais nunca escrevi, apenas para dizer que são situações completamente diferentes.

Com os dois, que me fazem falta até hoje, aprendi que a vida é feita de tropeços e superações. Ao me ver bravo por causa de futebol, meu pai sempre dizia: ´”é só um jogo”. E meu irmão, que se foi aos 18 anos sem deixar de ser criança, nunca parava de sorrir.

Demorei, mas já faz tempo que entendi que torcer por 11 caras correndo atrás de uma bola não é uma questão de vida ou morte. Vale a brincadeira, vale a gozação, vale a piada, vale a frase feita, vale o trocadilho infame... Vale quase tudo. Só não vale matar ou morrer.

E a lição mais recente veio de uma menina que conheço há quase 14 anos. Ela nunca ligou muito pra futebol, ao contrário do irmão, que tem 9 anos de vida e quase isso como torcedor. Sério! A devoção dele já era manifestada no berço.

A garota começou a se interessar pela bola nos últimos três ou quatro meses. De simpatizante, virou uma palmeirense apaixonada, sempre acompanhando todos os jogos e vestindo a camisa do time dentro e fora de casa. Diante da pergunta do motivo disso tudo, ela responde, simplesmente, que o time precisa de apoio muito mais nas derrotas do que nas vitórias. Para o irmão dela, verdinho desde o tempo das fraldas, nada mudou também.

Projetei a atitude dessas crianças para a vida e concluí que não vão abandonar um parente, um amigo ou qualquer outra pessoa só por causa de um tropeço. Aí, foi inevitável a lembrança do moleque que eu fui. Quase senti vergonha de mim mesmo. Virei palmeirense aos oito anos, em 1972. Era um tempo de vitórias e títulos frequentes. Além dessa moleza, tive um incentivo a mais. Veio de um corintiano, dono de uma bicicletaria perto da loja do meu pai, no centro de Mogi. Eu passava por lá e ele me chamava de “palmeirense” sem eu ser, só pra ter alguém pra provocar. Dois anos depois, em 1974, com o título do Palmeiras sobre o Corinthians, arredondando 20 anos de fila no Paulistão, ele se arrependeu de ter criado aquela cobrinha verde, já com 10 anos, tirando sarro dele. Eu passava lá e ele me botava pra correr...

É assim que vejo o futebol, como brincadeira para fazer e receber. A gangorra sobe e desce. Não fico feliz com o rebaixamento, mas ele me trouxe ainda mais orgulho dessas duas crianças que aprenderam essa lição muito antes de mim. A porquinha e o porquinho lá de casa estão firmes como nunca e não se abalam com qualquer ventania. Tenho dois filhos de primeira.



Escrito por Haisem Abaki às 16h37
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Palavras justas, justíssimas

 

Numa tarde de muito calor, chego ao Terminal do Tietê e dou de cara com uma fila na bilheteria. Dez ou doze pessoas, mais ou menos... Liguei o rádio, coloquei os fones de ouvido e relaxei.

Logo à frente, duas garotas muito falantes pareciam estar numa disputa de volume com o meu aparelho. Mas eu permanecia tão concentrado que nem prestei atenção nelas. Se alguém perguntar, não terei condições de dizer que uma era loira e outra morena. Também não percebi que vestiam calças justas. Justíssimas até, se eu fosse mais atento, mas não enxerguei nada. Nem mesmo reparei que usavam blusinhas curtas e muito menos que uma delas tinha uma tatuagem na cintura, ou ali por perto.

Como não vi nada disso, estou impossibilitado de dar detalhes... Mas uma coisa eu, que não olhei para elas, não pude deixar de notar. Uma das moças falava muitos palavrões enquanto a outra ria sem parar. Talvez eu falhe um pouco na cronologia dos fatos, mas vou tentar reproduzir aqui o papo das garotas, sempre ressaltando que a fisionomia delas não está em minha mente neste momento, até porque não lancei olhares na direção delas...

- C... essa m... dessa fila não anda... É do c... mesmo!

Continuei ouvindo rádio. Eram notícias sobre o julgamento do mensalão, nada a ver com a conversa diante dos meus distraídos olhos.

- Esse v... que tá na bilheteria é muito lerdo... Toda vez que é ele fica essa p... dessa fila do c...!

No rádio, um ministro falava em bom juridiquês e condenava um réu mandando-o para algum lugar que certamente a moça ali da frente descreveria com outras palavras.

- PQP, assim eu vou chegar atrasada e eu não estudei p... nenhuma pra essa m... de prova!

Nesse ponto, dois ministros travavam uma troca de insultos no tribunal, mas tudo no mais alto nível, com Vossa Excelência pra lá e pra cá. Falavam de quantias vultosas quando uma moedinha caiu das mãos da moça que ia direto ao ponto, sem rodeios.

Numa combinação de gestos unindo graça, leveza e agilidade, parei os girantes 50 centavos com o pé, abaixei, peguei e entreguei a moeda para a garota. Ela abriu um largo sorriso, me agradeceu, pagou a passagem e me disse tchau. Bem que eu tinha percebido, logo de cara, que era uma menina bem-educada, apesar de não ter reparado nela, jamais, em nenhum momento...

Já no ônibus, que coincidência, a simpática moça do palavreado sem floreio se sentou com a amiga na poltrona ao lado, me deu um oi e logo voltou à temática preferida.

- Agora só falta ter um p... trânsito na marginal e na Ayrton Senna!

O noticiário já estava no futebol quando um senhor de uns 60 anos se sentou ao meu lado. Em poucos segundos, o sujeito já puxava papo comigo. Falou do calor, do ar seco, da poluição, que estava rezando por uma chuva, da correria de São Paulo, que a cidade era uma loucura... Parecia uma metralhadora e nem me dava chance de responder. Não que eu quisesse dizer alguma coisa além das interjeições que soltei durante o nosso “diálogo”.

Pouco depois de o ônibus partir, ele começou a dar umas pescadas e a pender para o meu lado. Na ponte da Vila Guilherme, já pude ouvir a sinfonia de roncos que ele emitia enquanto o Gilson Kleina dizia que o Palmeiras não cairia para a Série B.

Perto do Corinthians, o homem acordou, viu que estava mais próximo do que o desejável (pelo menos para mim), pediu desculpas, contou que o cachorro do vizinho não o deixava dormir à noite, virou pro outro lado (que alívio) e retomou a roncaria. Tudo isso com voz calma, pausada, sem alterações. Bem que eu tinha percebido, logo de cara, que era um cara mal-educado...

Já em Mogi, a bela moça (não sei porque estou dizendo bela, já que nem olhei para ela) comemorava a chegada com a amiga, mais uma vez com aquele jeitinho meigo.

- Até que enfim chegamos nessa p... Ainda tem um tempinho pra estudar pra essa prova do c...!

Quando dei preferência pra ela  passar, veio de novo um sorriso, seguido de um agradecimento e de um tchau. Espero que tenha tirado um dez na avaliação. Acho que seria uma nota justa, justíssima.

Quanto ao dorminhoco, me agradeceu “pela companhia e pela conversa”, me desejou boa noite com voz mansa, acenou e foi embora. Espero que ele não tenha incomodado o cachorro do vizinho com os ensurdecedores roncos. Ouvindo aquela pauleira, o animal tem o sagrado direito “humano” de latir.

No rádio, o assunto voltava a ser o mensalão. A propósito, sou muito imparcial nos meus julgamentos. Percebo o jeito das pessoas logo de cara e sei separar bem as coisas... Sou um cara muito justo, justíssimo! 

 



Escrito por Haisem Abaki às 21h16
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Coisas espumando na cabeça

Meus cabelos mudaram bastante nos últimos quarenta e muitos anos. No começo, eram encaracolados e compridos. Tchu-tchu-qui-nho da mamãe de primeira viagem! Depois, já com o sorriso banguela, passei pelo corte batido, cercado por um par de orelhas por todos os lados. Quando finalmente pude escolher, decidi cobri-las.

Fui cabeludo, barbudo e cabeludo, topetudo com gel, topetudo sem gel, jogado para o lado, para trás, partido ao meio, adepto das costeletas, ao sabor do vento e tantos outros modelos dos quais a cabeça, hoje menos recoberta, já não tem mais lembrança.

Mas uma coisa nunca mudou ao longo de todas essas fases. Sempre fui determinado na escolha do xampu. Determinavam e eu usava. Foi assim num “curto” período entre os reinados de mamãe e daquela que disse “sim” no altar a um sujeito tão bem resolvido no assunto. Resolvia não comprar sozinho e pronto.

Nos últimos vinte anos, a escolha passou a ser uma questão de opinião. Minha consultora para assuntos capilares aparecia de vez em quando com um produto novo e eu opinava que ela sempre tinha razão.

Aos poucos, fui ficando cada vez mais independente e já ia ao supermercado sozinho. Bastavam uns poucos telefonemas para obter informações básicas, como nome, marca e cor da embalagem. Ultimamente, vinha usando um à base de açaí, com frasco verde escuro, indicado adivinha por quem? Ela gostou, mas prevaleceu o meu parecer definitivo e irreversível: eu também.

Corria tudo bem até o dia em que um fato inesperado me deixou com os cabelos arrepiados. Fui à prateleira de sempre e não encontrei o xampu. Fiz um pente fino com idas e vindas pelo corredor e nada. Fui a outro supermercado e nada também. Parti para o terceiro e lá se foi o último fio de esperança. Respirei fundo e tomei uma decisão difícil, de fazer uma compra puramente técnica. Fui pelas cores das embalagens.

Uma amarela prometia recuperar a aparência original, reparando três anos em um mês. O xampu verde claro anunciava que acabaria com o cabelo armado, mas o meu sempre foi de paz. Havia um branco que oferecia maciez prolongada, um vermelho que garantia a restauração dos fios quebrados... Tudo parecia igual, com uma exaustiva repetição de palavras como maciez, brilho, volume, hidratação, penteado... Fiquei ainda mais intrigado com a frase “nutre de dentro para fora”. Foi aí que tive um gesto de muita firmeza. Peguei um amarelo bebê com inscrição específica para pessoas de atitude, como eu: “neutro”.

Os dias seguintes correram sem problemas. Lavava, enxaguava, secava, penteava... Foi assim até o dia em que percebi que a embalagem estava completamente vazia, bem na hora que mais precisei. Ali, sob o chuveiro, peguei um frasco azul compridinho e mandei ver. Vi que o conteúdo também era de um azul bem forte, coisa de homem mesmo. Já no espelho, notei algo diferente. Não sei direito o que era, mas gostei. Quase não precisei pentear e depois ainda ouvi elogios.

De novo em casa, fui pegar a embalagem azul compridinha pra ver do que se tratava aquele produto feito especialmente para mim. “Girls”. E para não deixar dúvidas: “cabelos longos e finos”. No outro dia, no supermercado, voltei a ser neutro na cabeça.

Algum tempo depois, contei a história ao Antenor, o cara da tesoura que tem minha confiança e fidelidade desde o fim dos anos 80. Ele achou graça e me deixou 50% mais tranquilo, com um “seu cabelo não é longo, mas é fino”. Depois, explicou que o xampu só serve pra limpar e que o resultado varia de pessoa pra pessoa...

Em seguida, ele aumentou meus problemas em 100%, dizendo que o mais importante é o condicionador. Então, já que é assim, o negócio é não se descabelar. Isso mesmo, duas vezes “girls”. Frascão azulão, compridão, conteudão azulão também. Bem brucutuzão...



Escrito por Haisem Abaki às 19h14
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Dois moleques na prova dos nove

 

Um garotinho lá em casa está ansioso e fazendo contagem regressiva. A cada dia ele vê que falta menos tempo para o aniversário de nove anos. Sem saber, o moleque me fez viajar a 1973, quando eu tinha essa idade.  As lembranças não são exatas porque a memória já não é tão boa, mas vamos até lá, meu garoto. Preste atenção! Agora estou falando com você mesmo!

Mais ou menos nessa época, fui apresentado às calças com zíper. A primeira experiência foi terrível. Só de pensar, sinto aquela doooor de novo. Meu pai e um amigo dele correram pra desenganchar o bichinho. Você, carinha, teve mais sorte. Já conhece bem o abre e fecha e não é bobo como eu era. Com o tempo, aprenderá a hora certa de ficar sem cueca. Um a zero pra você.

Minhas calças também eram um show. Tenho recordações de uma azulona, de uma laranja (se disserem que era abóbora eu nego) e de uma listrada de preto, bege e outra cor indefinida que hoje acredito ser a de burro quando foge. E com as barras bocas-de-sino elas balançavam pra lá e pra cá o tempo todo. Você já pode vestir jeans com um monte de bolsos para os seus carrinhos, garotaço feliz. Dois a zero.

Aos nove anos, de livre e espontânea obrigatoriedade, eu ia aos passeios usando conjuntos de short e camisa de tricô de cores beeeeem discretas, como azulão (sua avó gostava mesmo dessa cor) e verde reluzente. Feitos com carinho e competência por ela, mas de tricô! Tudo combinando com as meias brancas e os sapatos, muito bons para um menino correr leve e solto. Três a zero pra você, moleque, sempre descolado com bermudas, camisetas, tênis e chinelos.

Com nove anos, a lousa da minha sala ficou embaçada e eu não conseguia copiar “o ponto” direito. Era a miopia pedindo lentes grossas e gerando novos apelidos na escola. A hereditariedade também entrou pelos seus olhos, mas você fica bem com esses óculos moderninhos e eu quase não vi que já fez quatro a zero em mim.

Falando em apelidos, aquele foi um período em que a molecada da escola não perdoava o meu nome diferente. Era muita gozação e fiquei bravo com o seu avô e a sua avó. Por que não escolheram um nome “brasileiro”? Isso passou alguns anos depois, quando as meninas já puxavam uns papos do tipo: “que nome diferente, bem legal, o que significa?”. Você está tranquilo nessa parte, né Vitinho? No máximo, será um Vitão. E com as garotas vai se virar de outro jeito. Cinco a zero pra você.

No nono ano de vida, ganhei meu primeiro relógio, com um pouco de sacrifício. Precisei economizar uns trocados e não via a hora de completar a quantia que, acho, era de 37 “cruzeiros”. Pense nisso ao escolher algum da coleção que você reuniu nesses quase nove looooongos anos. O tempo passa e você já tascou seis a zero em mim.

Aos nove anos, eu adorava jogar bola e tinha várias qualidades. A primeira era correr muito. A segunda era correr muito. Isso sem contar as outras, que eram correr muito, correr muito e correr muito. Dizem que a bola estava lá, mas a gente quase não se encontrava. E você, garotão, com seus dribles e esse tirombaço de pezinho esquerdo, mesmo sem ser canhoto. Humilhou. Sete a zero.

Nessa época, também passei a conviver com a minha eterna prova dos nove. Foi quando percebi que as contas de dividir e subtrair eram assustadoras e sempre iam parar no boletim, para espanto dos meus pais. Sofro com isso até hoje, mas ainda bem que o celular tem calculadora e me socorre. E você, aí, sossegado com a Matemática, tirando de letra. Ou de números? Oito a zero. Perdi feio. Placar irreversível.

Com nove anos eu já me perguntava por que todo mundo tinha avô, avó, tio, tia, primo e prima sempre por perto. Os meus estavam do outro lado do mundo e falavam uma língua enrolada. Você conheceu avô, tem avó, 13 tios e um número quase incalculável de primos. Sortudo. Fez nove a zero em mim. Desisto. Você já ganhou.

Ah, mas antes de parar tem mais uma coisa. Aos nove anos, comecei a entender um pouco quem era aquele sujeito que chamava de pai. Muito sério, mas brincalhão. De princípios rígidos, mas divertido. Exigente, mas compreensivo. Muito honesto, mas sem se achar acima dos outros. E você, garoto, só tem... Eu! Dez a nove pro moleque que eu fui! Pensou que ia ganhar sempre?

Mas fique calmo porque ainda estou aqui e, na verdade, não existe uma disputa entre nós. Jogamos no mesmo time e ganhamos e perdemos juntos. Acho que tive boas aulas de como ficar ao lado de um filho. Pode contar comigo pra tudo. Quase tudo... Sabe aquela história do zíper, lá no começo? Então... Eu não tenho as habilidades manuais do seu avô pra mexer com essas coisinhas. O resto você me ensina, carinha!

 

 Passei um tempo ausente aqui para me dedicar às mudanças de um novo projeto profissional. Sou grato a todos que cobraram a volta. Agradeço também aos ouvintes de outras jornadas que pude reencontrar e aos novos que tive a oportunidade de conhecer. Estou diariamente, das 6 às 10 da manhã, na Rádio Estadão ESPN, em FM 92,9, AM 700 e www.estadaoespn.com.br, ao lado da Mia Bruscato e do Elder Ferrari. 



Escrito por Haisem Abaki às 15h57
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Um segredo público

Uma senhora aparentando 50 anos (espero não ter sido rigoroso demais) tira o celular da bolsa e passa a conversar com uma “Mariana”. Não sou enxerido, mas descobri sem esforço quando ela disse, logo de cara, um “Oi Mariana”. Percebi também que era uma mulher muito conservadora porque o aparelho tocou como se fosse um telefone mesmo (triiiiim!!!), sem aquelas modernidades multimidiáticas disponíveis para download, muito usadas por quem está down e precisa de um up. Na hora, pensei na minha filha. Se ouvisse o toque de celular da pobre mulher, seria a única chance de meu Happy Go Lucky ser elevado ao conceito de “descolado” e ninguém ficaria torcendo pra eu atender logo e acabar com a tortura.

Mas logo a conversa da desafortunada senhora me tirou daqueles pensamentos domésticos. Daqui pra frente, vou parar de chamá-la de “senhora” e “mulher”, que são os parcos recursos que tenho para falar de alguém cujo nome ignoro. Vou me referir a ela apenas como “vovó”, diante do teor do diálogo que fui “obrigado” a ouvir.

- Ah, Mariana... Eu te liguei, sim. Ah, menina, eu tô sem chão...

E depois de Mariana ter perguntado o que havia acontecido (brilhante conclusão do esperto aqui), veio a história inteira.

- É a Fabiana... Você não sabe, menina... Ela não foi com o pai pra Recife? Pois, é... Conheceu um rapaz lá e embarrigou. Vai me dar um neto... Eu queria muito um neto, mas não desse jeito.

Aumentei o volume do fone de ouvido do meu rádio, que às vezes também faz e recebe ligações. Achei melhor não ouvir mais aquilo, mas a futura vovó parecia falar cada vez mais alto.

- E o pior é que o rapaz veio pra cá atrás dela e ela disse que não quer nada com ele. Vai ter o meu neto, mas não quer saber de casamento... Diz que é muito nova...

No meu rádio falava o Muricy Ramalho, o que em termos de humor não mudava muito a minha escuta, já que ele também reclamava da vida, feito a hiena de Lippy & Hardy (Oh, dia... Oh, azar...). E a vovó prosseguia nas lamentações.

- Vai sobrar pra mim... Eu é que vou ter que cuidar...

Dei uma passeada radiofônica e nada. Notícias, MPB e baladas não superavam as lamúrias da vovozinha. Nem ouvir Guns N’Roses com “Welcome to the Jungle” adiantou. O desgosto expresso na fala estridente da futura avó coruja era muito mais pauleira.

Então, comecei a prestar atenção mesmo e até olhei para ela. Aos poucos a conversa foi ficando mais amena e entrou pelo enxoval e pelo nome da criança. Pedro, Vinícius, Adriana, Marina... Já estava tão familiarizado que quase dei palpite!

Pensei que estava sendo intrometido demais ao ouvir descaradamente aquela conversa, mas deixei a consciência pesada de lado quando uma voz soltou um “Estação República” pelo alto-falante. Era um segredo para poucos. Só eu e a torcida do Metrô Palmeiras/Barra Funda-Corinthians/Itaquera estávamos sabendo. A partir de agora, vou falar mais baixo quando o Happy Go Lucky tocar!

 



Escrito por Haisem Abaki às 20h27
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De volta ao rádio paulistano

Neste mês de setembro, inicio uma nova etapa profissional. Estou de volta ao rádio paulistano, com muita alegria e disposição para fazer o que mais gosto. Minha nova casa é a Estadão ESPN, onde já nos primeiros contatos encontrei um projeto estimulante e um ambiente que me é muito familiar, com a presença de bons companheiros de outras jornadas pelo rádio.

A partir do dia 05, estarei diariamente na apresentação do Estadão no Ar 2ª edição, das 13 às 14 horas, e do Estadão no Ar 3ª edição, das 18 às 20 horas, tentando fazer um jornalismo que respeita a inteligência do ouvinte.

Sou grato a todos vocês pelas manifestações que tenho lido e ouvido depois de ter deixado o Grupo Bandeirantes, uma boa casa na qual tive a oportunidade de trabalhar por 12 anos e fazer amigos, a exemplo do que havia ocorrido nos 7 anos de CBN/Globo, outra grande casa também.

Agora terei novamente a oportunidade de retribuir o apoio por meio do veículo que nos aproximou. Vamos nos falar pelo rádio. Espero poder reencontrá-los em FM 92,9 e AM 700.



Escrito por Haisem Abaki às 18h01
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Surpreendido pelas costas

Começou “devagar, devagar, devagarinho”, como diria Martinho da Vila. Depois, foi “crescendo, crescendo, me absorvendo”, como diria Peninha. Uma leve dorzinha na parte baixa das costas, perigosamente perto de uma região estratégica.

De imediato, tomei uma decisão firme, de muita atitude, numa postura que sempre adoto quando o assunto é algum incômodo com a minha saúde. Resolvi não fazer nada.

Achei que era uma bobagem causada pela bagagem que havia carregado numa viagem de fim de semana e segui em frente, sem me preocupar com tanta rima. Parti para a minha corrida habitual levando as costas junto. Começou a chover e não me importei. A água desceu mais forte e não liguei. Só parei quando os pingos já entravam nos olhos.

Dormi mal e acordei com mais dor ainda. E aí, finalmente... Decidi não fazer nada de novo. No trabalho, o desconforto aumentava cada vez mais. Por telefone, alguém que me ama me mandou ir ao médico. Aceitei de livre e espontânea obrigatoriedade, com apenas uma condição: “Só vou se você for comigo...”.

Ela não podia e fui sozinho, menos pela dor e mais para provar que um menino de 46 anos (quase 47) já sabia fazer algumas coisas sem ajuda, como amarrar cadarços, por exemplo. Não, nem isso eu estava conseguindo. Ai!

Depois do exame clínico e da radiografia, o ortopedista apontou uma “lombalgia leve por prática desportiva”, receitou um antiinflamatório de nome Celebra (tomei, mas não celebrei porque detesto remédio) e me mandou para dez sessões de fisioterapia.

Em três dias, nada mais de dor. Pensei em dar de ombros para o tratamento, mas um simples olhar de alguém especial me fez ser um garoto obediente pra não ficar de castigo. Ela sempre me convence. Fui sozinho outra vez e pronto. Quase isso. Tá bom, levei minha filha e meu filho comigo alternadamente em algumas sessões.

Fui muito bem tratado. A série era bem simples, apenas com exercícios de alongamento, na base do estica e puxa. Foi um alívio, porque pensei que seria lavado, torcido, enxaguado, centrifugado e estendido no varal pra secar.

No primeiro dia, apareceu um fisioterapeuta muito gente boa, mas que não precisava ter exagerado. O rapaz explicou tudo direitinho e me deu total assistência. Ele acompanhou o meu desempenho,  foi um grande incentivador e fez perguntas, até que chegou um momento crucial. Foi um “Sentiu o bumbum esticar?”, seguido de um leve tapinha no mesmo. Respondi com um tímido balançar da cabeça em sinal de sim. Que pergunta amarga! Cara folgado! Depois, ainda disse pra eu avisar se sentisse dor para me dar “uns choquinhos”! Fiquei chocado! Ainda bem que não precisei.

Na segunda sessão, fui atendido por uma fisioterapeuta muito gente boa, que não exagerou em nada. A moça explicou tudo direitinho e me deu total assistência. Ela acompanhou o meu desempenho, foi uma grande incentivadora e fez perguntas, até que chegou um momento fenomenal. Foi um “Sentiu o bumbum esticar?”, seguido de um leve tapinha no mesmo. Respondi com um abundante balançar da cabeça em sinal de siiiiim. Que pergunta doce! Garota simpática! Depois, ainda disse pra eu avisar se sentisse dor para me dar “uns choquinhos”! Chocante! Pena que não precisei.

Estirado na maca, fui tomado por um pensamento. Como duas pessoas que fazem exatamente a mesma coisa no mesmo lugar podem ser tão diferentes? Ele, gentil, competente, prestativo, atencioso e preocupado com o meu bem-estar. Que coooooisa! Não precisava de tudo isso! Ela, gentil, competente, prestativa, atenciosa e preocupada com o meu bem-estar. Que graaaaaça! Na medida certa!

E teve mais! Ele, com muita paciência, me ensinou a levantar da maca (sempre de ladinho) e a abaixar corretamente para pegar alguma coisa no chão. Que abusado! Já ela, com muita paciência, me ensinou a levantar da maca (sempre de ladinho) e a abaixar corretamente para pegar alguma coisa no chão. Que doçura!

Acho que devemos tratar todo mundo da mesma maneira e sou um sujeito sempre grato por tudo que me fazem de bom. Então, a ele, deixo o meu gelado “muito obrigado”. A ela, o meu derretido “muito obrigado, mas muito obrigado mesmoô”!

Fiquei bom e fui liberado para retomar a atividade física aos poucos. Ah, e sobre os músculos glúteos, se estão esticados ou não, só tenho duas coisinhas a dizer. A primeira, é que me reservo o direito de ficar calado, rapaz. A segunda, é que estão, sim, mocinha.



Escrito por Haisem Abaki às 20h51
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Amor bem explicadinho

Do banco traseiro do carro, na volta da escola, vem uma voz de homenzinho que pergunta:

- Pai, amar alguém é uma coisa muito boa, né?

Olhei espantado pelo retrovisor, respondi com um “Claro que é!” e logo quis saber a razão de um menininho de 7 anos e 11 meses já expressar tal pensamento:

- Ah, é uma coisa boa, pai, mas não dá pra explicar...

Fiquei imaginando se alguém já teria despertado algum sentimento no moleque que dizem ser a minha cara e insisti com um “De onde você tirou isso?”. Minha versão melhorada me surpreendeu ainda mais:

- Ah, foi daquela história que você escreveu falando de mim lá no seu blog...

E eu, tonto, pensando que ele só entenderia daqui a alguns anos o último texto que publiquei! Em casa, tive a lembrança de um artigo que li sobre um “consultor” que dava dicas para encontrar “o amor da mulher certa”.

Aí, achei que eu, com a autoridade de “papai sabe-tudo”, tinha todo o direito de dar as minhas receitas ao rapazinho tão interessado no assunto. Resolvi deixar as sábias orientações por escrito para ele entender daqui a alguns... Minutos?

Não vou falar sobre coração batendo acelerado, suor, calafrios ou frases desconexas. Estes não são sinais exclusivos do amor. Aparecem também em outras situações, como andar de Montanha Russa, por exeeeeeeeeeemplo! Então, vamos aos fatos, meu garoto.

Se alguém especial, longe ou perto, for a última pessoa em quem você pensa antes de dormir e a primeira que invade a sua cabeça ao acordar, está explicado: é amor.

Se você sentir saudades repentinas várias vezes ao dia mesmo que a responsável por isso esteja ao seu alcance, está explicado: é amor.

Se a cada encontro você tiver vontade de fazer um brinde, ainda que seja com água ou suco num copo descartável, está explicado: é amor

Se você guardar na memória a voz suave de alguém com olhos penetrantes e um cheiro de uma fragrância que depois você descobre que é natural e não perfume, está explicado: é amor.

Se você puder contar seus segredos, falar um monte de bobagens e deixar que ela faça o mesmo, escutando com paciência, está explicado: é amor.

Se você permitir que a emoção role solta, sem culpa, sem vergonha e sem receio de se mostrar um cara sensível, está explicado: é amor.

Se você se encantar por uma pessoa que sempre tem palavras sensatas e adultas na hora certa, mas ainda gosta de bonecas e bichos de pelúcia, está explicado: é amor.

Se você se lembrar de alguém ao ouvir o Air Supply cantando “Making Love Out Of Nothing At All” e não achar a letra pesada e a interpretação exagerada em nenhum momento, está explicado: é amor.

Se você se identificar com o Elvis ou o Willie Nelson cantando “You’re Always On My Mind” e pedir desculpas por alguma besteira que tenha feito, está explicado: é amor.

Se você for capaz de ver o filme “Letra e Música” e de dar aquela reboladinha do Hugh Grant quando toca “Way Back Into Love”, está explicado: é amor.

Se você, num impulso, resolver fazer uma limpeza de pele pela primeira vez na vida (sim, machões de plantão, eu disse lim-pe-za-de-pe-le!) e ficar esperando que ela note alguma diferença, está explicado: é amor.

E, por fim, o grande teste. Se você conseguir jogar todas essas receitas no lixo e criar as suas próprias, ainda mais malucas do que as minhas, está explicado: é amor.

O importante é não ter medo de ser ridículo. Quanto mais, melhor. Aí, sim, vou ter a certeza de que você é mesmo a minha versão melhorada.

E se você perceber que ama de um jeito que não tem mais cura, finalmente, estará salvo. Está bem explicadinho, carinha? Se não estiver, relaxe. Inexplicavelmente, é sempre muito bom.

 



Escrito por Haisem Abaki às 22h17
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