Blog do Haisem


Dois moleques na prova dos nove

 

Um garotinho lá em casa está ansioso e fazendo contagem regressiva. A cada dia ele vê que falta menos tempo para o aniversário de nove anos. Sem saber, o moleque me fez viajar a 1973, quando eu tinha essa idade.  As lembranças não são exatas porque a memória já não é tão boa, mas vamos até lá, meu garoto. Preste atenção! Agora estou falando com você mesmo!

Mais ou menos nessa época, fui apresentado às calças com zíper. A primeira experiência foi terrível. Só de pensar, sinto aquela doooor de novo. Meu pai e um amigo dele correram pra desenganchar o bichinho. Você, carinha, teve mais sorte. Já conhece bem o abre e fecha e não é bobo como eu era. Com o tempo, aprenderá a hora certa de ficar sem cueca. Um a zero pra você.

Minhas calças também eram um show. Tenho recordações de uma azulona, de uma laranja (se disserem que era abóbora eu nego) e de uma listrada de preto, bege e outra cor indefinida que hoje acredito ser a de burro quando foge. E com as barras bocas-de-sino elas balançavam pra lá e pra cá o tempo todo. Você já pode vestir jeans com um monte de bolsos para os seus carrinhos, garotaço feliz. Dois a zero.

Aos nove anos, de livre e espontânea obrigatoriedade, eu ia aos passeios usando conjuntos de short e camisa de tricô de cores beeeeem discretas, como azulão (sua avó gostava mesmo dessa cor) e verde reluzente. Feitos com carinho e competência por ela, mas de tricô! Tudo combinando com as meias brancas e os sapatos, muito bons para um menino correr leve e solto. Três a zero pra você, moleque, sempre descolado com bermudas, camisetas, tênis e chinelos.

Com nove anos, a lousa da minha sala ficou embaçada e eu não conseguia copiar “o ponto” direito. Era a miopia pedindo lentes grossas e gerando novos apelidos na escola. A hereditariedade também entrou pelos seus olhos, mas você fica bem com esses óculos moderninhos e eu quase não vi que já fez quatro a zero em mim.

Falando em apelidos, aquele foi um período em que a molecada da escola não perdoava o meu nome diferente. Era muita gozação e fiquei bravo com o seu avô e a sua avó. Por que não escolheram um nome “brasileiro”? Isso passou alguns anos depois, quando as meninas já puxavam uns papos do tipo: “que nome diferente, bem legal, o que significa?”. Você está tranquilo nessa parte, né Vitinho? No máximo, será um Vitão. E com as garotas vai se virar de outro jeito. Cinco a zero pra você.

No nono ano de vida, ganhei meu primeiro relógio, com um pouco de sacrifício. Precisei economizar uns trocados e não via a hora de completar a quantia que, acho, era de 37 “cruzeiros”. Pense nisso ao escolher algum da coleção que você reuniu nesses quase nove looooongos anos. O tempo passa e você já tascou seis a zero em mim.

Aos nove anos, eu adorava jogar bola e tinha várias qualidades. A primeira era correr muito. A segunda era correr muito. Isso sem contar as outras, que eram correr muito, correr muito e correr muito. Dizem que a bola estava lá, mas a gente quase não se encontrava. E você, garotão, com seus dribles e esse tirombaço de pezinho esquerdo, mesmo sem ser canhoto. Humilhou. Sete a zero.

Nessa época, também passei a conviver com a minha eterna prova dos nove. Foi quando percebi que as contas de dividir e subtrair eram assustadoras e sempre iam parar no boletim, para espanto dos meus pais. Sofro com isso até hoje, mas ainda bem que o celular tem calculadora e me socorre. E você, aí, sossegado com a Matemática, tirando de letra. Ou de números? Oito a zero. Perdi feio. Placar irreversível.

Com nove anos eu já me perguntava por que todo mundo tinha avô, avó, tio, tia, primo e prima sempre por perto. Os meus estavam do outro lado do mundo e falavam uma língua enrolada. Você conheceu avô, tem avó, 13 tios e um número quase incalculável de primos. Sortudo. Fez nove a zero em mim. Desisto. Você já ganhou.

Ah, mas antes de parar tem mais uma coisa. Aos nove anos, comecei a entender um pouco quem era aquele sujeito que chamava de pai. Muito sério, mas brincalhão. De princípios rígidos, mas divertido. Exigente, mas compreensivo. Muito honesto, mas sem se achar acima dos outros. E você, garoto, só tem... Eu! Dez a nove pro moleque que eu fui! Pensou que ia ganhar sempre?

Mas fique calmo porque ainda estou aqui e, na verdade, não existe uma disputa entre nós. Jogamos no mesmo time e ganhamos e perdemos juntos. Acho que tive boas aulas de como ficar ao lado de um filho. Pode contar comigo pra tudo. Quase tudo... Sabe aquela história do zíper, lá no começo? Então... Eu não tenho as habilidades manuais do seu avô pra mexer com essas coisinhas. O resto você me ensina, carinha!

 

 Passei um tempo ausente aqui para me dedicar às mudanças de um novo projeto profissional. Sou grato a todos que cobraram a volta. Agradeço também aos ouvintes de outras jornadas que pude reencontrar e aos novos que tive a oportunidade de conhecer. Estou diariamente, das 6 às 10 da manhã, na Rádio Estadão ESPN, em FM 92,9, AM 700 e www.estadaoespn.com.br, ao lado da Mia Bruscato e do Elder Ferrari. 



Escrito por Haisem Abaki às 15h57
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