Blog do Haisem


Palavras justas, justíssimas

 

Numa tarde de muito calor, chego ao Terminal do Tietê e dou de cara com uma fila na bilheteria. Dez ou doze pessoas, mais ou menos... Liguei o rádio, coloquei os fones de ouvido e relaxei.

Logo à frente, duas garotas muito falantes pareciam estar numa disputa de volume com o meu aparelho. Mas eu permanecia tão concentrado que nem prestei atenção nelas. Se alguém perguntar, não terei condições de dizer que uma era loira e outra morena. Também não percebi que vestiam calças justas. Justíssimas até, se eu fosse mais atento, mas não enxerguei nada. Nem mesmo reparei que usavam blusinhas curtas e muito menos que uma delas tinha uma tatuagem na cintura, ou ali por perto.

Como não vi nada disso, estou impossibilitado de dar detalhes... Mas uma coisa eu, que não olhei para elas, não pude deixar de notar. Uma das moças falava muitos palavrões enquanto a outra ria sem parar. Talvez eu falhe um pouco na cronologia dos fatos, mas vou tentar reproduzir aqui o papo das garotas, sempre ressaltando que a fisionomia delas não está em minha mente neste momento, até porque não lancei olhares na direção delas...

- C... essa m... dessa fila não anda... É do c... mesmo!

Continuei ouvindo rádio. Eram notícias sobre o julgamento do mensalão, nada a ver com a conversa diante dos meus distraídos olhos.

- Esse v... que tá na bilheteria é muito lerdo... Toda vez que é ele fica essa p... dessa fila do c...!

No rádio, um ministro falava em bom juridiquês e condenava um réu mandando-o para algum lugar que certamente a moça ali da frente descreveria com outras palavras.

- PQP, assim eu vou chegar atrasada e eu não estudei p... nenhuma pra essa m... de prova!

Nesse ponto, dois ministros travavam uma troca de insultos no tribunal, mas tudo no mais alto nível, com Vossa Excelência pra lá e pra cá. Falavam de quantias vultosas quando uma moedinha caiu das mãos da moça que ia direto ao ponto, sem rodeios.

Numa combinação de gestos unindo graça, leveza e agilidade, parei os girantes 50 centavos com o pé, abaixei, peguei e entreguei a moeda para a garota. Ela abriu um largo sorriso, me agradeceu, pagou a passagem e me disse tchau. Bem que eu tinha percebido, logo de cara, que era uma menina bem-educada, apesar de não ter reparado nela, jamais, em nenhum momento...

Já no ônibus, que coincidência, a simpática moça do palavreado sem floreio se sentou com a amiga na poltrona ao lado, me deu um oi e logo voltou à temática preferida.

- Agora só falta ter um p... trânsito na marginal e na Ayrton Senna!

O noticiário já estava no futebol quando um senhor de uns 60 anos se sentou ao meu lado. Em poucos segundos, o sujeito já puxava papo comigo. Falou do calor, do ar seco, da poluição, que estava rezando por uma chuva, da correria de São Paulo, que a cidade era uma loucura... Parecia uma metralhadora e nem me dava chance de responder. Não que eu quisesse dizer alguma coisa além das interjeições que soltei durante o nosso “diálogo”.

Pouco depois de o ônibus partir, ele começou a dar umas pescadas e a pender para o meu lado. Na ponte da Vila Guilherme, já pude ouvir a sinfonia de roncos que ele emitia enquanto o Gilson Kleina dizia que o Palmeiras não cairia para a Série B.

Perto do Corinthians, o homem acordou, viu que estava mais próximo do que o desejável (pelo menos para mim), pediu desculpas, contou que o cachorro do vizinho não o deixava dormir à noite, virou pro outro lado (que alívio) e retomou a roncaria. Tudo isso com voz calma, pausada, sem alterações. Bem que eu tinha percebido, logo de cara, que era um cara mal-educado...

Já em Mogi, a bela moça (não sei porque estou dizendo bela, já que nem olhei para ela) comemorava a chegada com a amiga, mais uma vez com aquele jeitinho meigo.

- Até que enfim chegamos nessa p... Ainda tem um tempinho pra estudar pra essa prova do c...!

Quando dei preferência pra ela  passar, veio de novo um sorriso, seguido de um agradecimento e de um tchau. Espero que tenha tirado um dez na avaliação. Acho que seria uma nota justa, justíssima.

Quanto ao dorminhoco, me agradeceu “pela companhia e pela conversa”, me desejou boa noite com voz mansa, acenou e foi embora. Espero que ele não tenha incomodado o cachorro do vizinho com os ensurdecedores roncos. Ouvindo aquela pauleira, o animal tem o sagrado direito “humano” de latir.

No rádio, o assunto voltava a ser o mensalão. A propósito, sou muito imparcial nos meus julgamentos. Percebo o jeito das pessoas logo de cara e sei separar bem as coisas... Sou um cara muito justo, justíssimo! 

 



Escrito por Haisem Abaki às 21h16
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