Blog do Haisem


Somar, subtrair, multiplicar e dividir é igual a Joelmir

Ouvintes, leitores e telespectadores sempre puderam contar com um sujeito de fala mansa e texto fácil que conseguia transformar a frieza da economia em bate-papo de amigos em torno de uma mesa. Foi ainda garoto e odiando números que, por obra de Joelmir Beting, passei a achar alguma graça neles. A linguagem descomplicada dele me fez “entender” planos econômicos mirabolantes com aquela tradução impecável capaz de atingir em cheio as mentes, os corações e os bolsos.

Uma vez, como repórter que detestava cobrir seminários econômicos, fiquei do começo ao fim de uma palestra dele sem sentir o sono que me dominava nessas ocasiões. O tema? Já saiu da memória... Mas sei que depois ele parou pra passar alguns dados que, com uma dose de ousadia, quis confirmar. Parecia que ele estava falando com “um igual”, embora a conversa fosse de jornalista já consagrado para jornalista com seis, talvez sete anos de profissão naquele início dos anos 90.

Essa história poderia terminar aqui e já seria de profunda admiração. Mas o tempo passou, a economia se estabilizou e virei colega de trabalho do Joelmir na Rádio Bandeirantes. Foram quase sete anos de lucidez e diversão, de seriedade e piadas, de entrevistas esclarecedoras com ministros e “causos” contados com a “ingênua malícia” do caipira de Tambaú. E isso era todos os dias, um depois do outro, sem interrupções e sem alterações no tom de voz. Tudo parecia contradição, mas era pura coerência.

Coerência porque ele sempre conseguia fazer as quatro operações ao mesmo tempo. Somava, subtraía, multiplicava e dividia como ninguém. Somava alegria, subtraía mau humor, multiplicava simplicidade e dividia conhecimento.

Quando o Palmeiras ganhava, ele chegava no dia seguinte com uma camisa verde e um “sorriso paralisado” e ficava bem à minha frente, à espera do início do Jornal Gente, enquanto eu apresentava o Jornal Primeira Hora. Quando nosso Palestra goleava, já dava pra imaginar a cena. Era inevitável... Ele entraria no estúdio com um dedo levantado para cada gol. Quando nosso time perdia, ele já fazia a piada antes dos rivais. Eram as quatro operações, de novo, ao mesmo tempo.

Matutamente, também gostava de me “atrapalhar” de outro jeito. Aparecia com biscoitos finos em embalagens vistosas. Quase sempre pedia pra eu abrir o produto para “dar início aos trabalhos”. Às vezes mostrava o rótulo e dizia que se todos os ingredientes descritos estivessem mesmo ali estava bom. Pra me assustar, também fingia que ia jogar as bolachas na minha direção enquanto eu estava ao microfone. Concretizou a ameaça algumas vezes com um biscoito que dizia ser o melhor de todos. Fui goleiro de pacotes de maizena... Eram as quatro operações, sempre elas, ao mesmo tempo.

Mas houve um dia em que pensei que estava tomando uma bronca daquele sujeito que nunca ouvi gritar. Ele reclamou que eu estava chegando “muito em cima da hora” ao entrar no estúdio cinco minutos antes do encerramento do Gente e da abertura do Manhã Bandeirantes.

O pito que levei veio depois de uma conversa que ele havia tido com um taxista, na véspera. Era um ouvinte que sabia todos os temas das nossas conversas com o Zé Paulo e o Salomão na passagem de um programa para o outro. Olhou sério para mim e disse: “O que as pessoas gostam é das bobagens que a gente fala na passagem. Então, vê se chega uns 15 minutos antes. Ou então... Por que a gente não faz um programa inteiro só com a passagem? Vamos esquecer as notícias”. Lá estava ele, mais uma vez, fazendo as quatro operações ao mesmo tempo.

E depois ele ainda ficava mais um pouco pra ouvir as crônicas que eu lia para abrir o programa. Não foram poucas as vezes em que simplesmente me interrompeu com gestos engraçados ou para comentar o que eu estava falando e me fazer rir. Sem cerimônia nem convenções, com as quatro operações ao mesmo tempo.

E assim este momento de tristeza e de perda dá lugar às boas lembranças, que somam, subtraem, multiplicam e dividem ao mesmo tempo. Ele se foi, mas deixou uma história, esta sim, irreversível. E deixou também o meu querido amigo, Mauro, um cara que também soma, subtrai, multiplica e divide ao mesmo tempo. Como o pai.



Escrito por Haisem Abaki às 08h00
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Dois porquinhos sem medo de ventania

A historinha a seguir antecede uma “tragédia” anunciada. Entre aspas mesmo, para não ser confundida com tragédia, que é uma coisa bem diferente. Não costumo dedicar este espaço a assuntos muito sérios porque a vida já é suficientemente chata. Mas depois de ouvir, ler e ver a cobertura jornalística da quase inevitável queda do Palmeiras para a Segundona, resolvi chutar essa intenção pra escanteio.

Nos últimos dias, tem sido comum na imprensa falada, escrita, televisada, conectada e berrada, o uso de termos como “morte”, “enterro”, “degola”... Sem contar as expressões do tipo “Palmeiras agoniza...”. Perdi meu pai de maneira brutal e vi meu irmão agonizar. Sim, estou sendo bem direto nesses assuntos tão delicados, sobre os quais nunca escrevi, apenas para dizer que são situações completamente diferentes.

Com os dois, que me fazem falta até hoje, aprendi que a vida é feita de tropeços e superações. Ao me ver bravo por causa de futebol, meu pai sempre dizia: ´”é só um jogo”. E meu irmão, que se foi aos 18 anos sem deixar de ser criança, nunca parava de sorrir.

Demorei, mas já faz tempo que entendi que torcer por 11 caras correndo atrás de uma bola não é uma questão de vida ou morte. Vale a brincadeira, vale a gozação, vale a piada, vale a frase feita, vale o trocadilho infame... Vale quase tudo. Só não vale matar ou morrer.

E a lição mais recente veio de uma menina que conheço há quase 14 anos. Ela nunca ligou muito pra futebol, ao contrário do irmão, que tem 9 anos de vida e quase isso como torcedor. Sério! A devoção dele já era manifestada no berço.

A garota começou a se interessar pela bola nos últimos três ou quatro meses. De simpatizante, virou uma palmeirense apaixonada, sempre acompanhando todos os jogos e vestindo a camisa do time dentro e fora de casa. Diante da pergunta do motivo disso tudo, ela responde, simplesmente, que o time precisa de apoio muito mais nas derrotas do que nas vitórias. Para o irmão dela, verdinho desde o tempo das fraldas, nada mudou também.

Projetei a atitude dessas crianças para a vida e concluí que não vão abandonar um parente, um amigo ou qualquer outra pessoa só por causa de um tropeço. Aí, foi inevitável a lembrança do moleque que eu fui. Quase senti vergonha de mim mesmo. Virei palmeirense aos oito anos, em 1972. Era um tempo de vitórias e títulos frequentes. Além dessa moleza, tive um incentivo a mais. Veio de um corintiano, dono de uma bicicletaria perto da loja do meu pai, no centro de Mogi. Eu passava por lá e ele me chamava de “palmeirense” sem eu ser, só pra ter alguém pra provocar. Dois anos depois, em 1974, com o título do Palmeiras sobre o Corinthians, arredondando 20 anos de fila no Paulistão, ele se arrependeu de ter criado aquela cobrinha verde, já com 10 anos, tirando sarro dele. Eu passava lá e ele me botava pra correr...

É assim que vejo o futebol, como brincadeira para fazer e receber. A gangorra sobe e desce. Não fico feliz com o rebaixamento, mas ele me trouxe ainda mais orgulho dessas duas crianças que aprenderam essa lição muito antes de mim. A porquinha e o porquinho lá de casa estão firmes como nunca e não se abalam com qualquer ventania. Tenho dois filhos de primeira.



Escrito por Haisem Abaki às 16h37
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